Imunologia aplicada à reprodução

Com o avanço da tecnologia, é incoerente dar um diagnóstico de esterilidade sem causa aparente (ESCA) a um casal sem antes investigar profundamente todas as causas dessa infertilidade.



Mas como a imunologia pode interferir na reprodução?

Para entendermos os aspectos imunológicos, é preciso conhecer um pouco de imunologia básica. “O sistema imune é o principal mecanismo de defesa do nosso corpo contra agentes externos, como vírus e bactérias. Nele, há células especializadas que atacam agentes agressores, podendo fazê-lo de forma direta ou pela produção de anticorpos e substâncias como as citoquinas (mediadores químicos no processo de defesa do organismo)”, explica o especialista em Reprodução Humana, Edilberto Araújo Filho.



O sistema imune também pode atacar outras células estranhas, como as cancerosas e até as transplantadas. Em resumo: ele está sempre pronto para atacar e destruir o que não faz parte do nosso organismo.

 

“O problema é que o embrião é um corpo estranho para a mãe, já que apenas metade da sua carga genética é materna. Por muito tempo, o útero foi considerado como uma barreira de proteção para que o sistema imune materno não o reconheça dessa forma. Hoje, sabemos que esse reconhecimento existe é necessário a um desenvolvimento adequado da gravidez”, afirma ele.


Aloimunidade
Um dos fatores que podem atrapalhar a gestação é a existência de parentesco entre o casal. “Devido à consanguinidade, a chance de um gene recessivo se expressar aumenta caso ele seja portado pelo marido e pela mulher. Podemos dizer que a diversidade genética é a maneira que a natureza encontrou para reproduzir com sucesso as espécies”, diz o especialista.


Segundo ele, o sistema imune materno parece ter mecanismos para reconhecer um feto com carga genética diferente, produzindo os chamados ‘anticorpos bloqueadores’, que protegeriam o embrião recém-implantado no útero. Esse tipo de resposta chama-se aloimunidade.


O médico explica que, mesmo quando homem e mulher não são parentes, podem ocorrer casos nos quais a variabilidade genética de ambos é pequena. Com isso, os ‘anticorpos bloqueadores’ não são produzidos adequadamente, deixando o embrião à mercê do ataque do sistema imune materno. Esse seria o mecanismo para evitar que fetos geneticamente semelhantes fossem gerados.


“Nos casos onde não há parentesco entre o casal, muitas vezes, o sistema imune materno interpreta o embrião como semelhante quando avalia apenas moléculas da membrana das células (Sistema HLA). Se existe certa semelhança entre o HLA materno e paterno, os anticorpos bloqueadores não são produzidos em quantidade adequada para proteger o embrião”, afirma Araújo Filho.


De acordo com o médico, isso não significa que exista grande compatibilidade genética entre o casal e que o risco de malformação seja maior. Mas o embrião terá uma maior chance de ser destruído pelo sistema imune da mãe e o quadro clínico poderá ser de abortamento de repetição.


“Nesses casos, indica-se um tratamento imunológico baseado na utilização de vacinas produzidas com linfócitos presentes no sangue paterno. Elas são administradas no organismo materno com o intuito de estimular, por uma via diferente, a produção de anticorpos contra o HLA paterno e, assim, ter efeito protetor para o embrião numa gravidez subsequente”.


A avaliação da presença desses anticorpos é feita por meio de um exame chamado ‘Cross-Match’ (Prova Cruzada). “A forma mais adequada de realizá-lo é pela Citometria de Fluxo Quantitativa, que pesquisa a presença de anticorpos contra linfócitos paternos no sangue da mãe”, explica o especialista.
Após a vacinação, um novo cross-match é realizado na mãe para checar se a vacina surtiu o efeito desejado.


Auto-imunidade
Mas o reconhecimento feito pelo sistema imune nem sempre é totalmente correto. Muitas vezes, ele pode apresentar falhas e reconhecer como estranhos componentes do nosso próprio organismo que se assemelham a substâncias estranhas pelas quais são produzidos os anticorpos.


“Esses ‘auto-anticorpos’ levam a quadros clínicos caracterizados por inflamações articulares e valvulares e aumento da formação de coágulos no sangue (trombose e embolia), o que também pode levar a quadros de abortamento de repetição e falhas de implantação embrionária, como esterilidade sem causa aparente e falhas repetidas em ciclos de fertilização in vitro, por exemplo”, explica Araújo Filho.


Nem sempre a presença desses auto-anticorpos indica que a mulher seja portadora de uma doença auto-imune, como o lúpus. Muitas vezes, ela é sinal de um pequeno desequilíbrio, o qual pode se manifestar por meio de dificuldade para engravidar ou manter a gestação até o final.


“Nesse caso, podem ocorrer abortos repetidos ou complicações durante a gestação, como pré-eclampsia, insuficiência placentária, descolamento de placenta, crescimento intra-uterino inadequado e até óbito fetal súbito. Tais casos costumam responder bem ao tratamento clínico específico”, diz o médico.


Segundo ele, fazem parte do grupo dos ‘auto-anticorpos’ os anticorpos antifosfolípide, anti-tiróide e o fator anti-núcleo (FAN).


Anticorpos antifosfolípides
Os fosfolípides são componentes naturais das membranas de nossas células. Os anticorpos antifosfolípides têm especificidade dirigida aos fosfolípides e, quando presentes em títulos altos, podem causar lesões do endotélio vascular (camada mais interna dos vasos sanguíneos), formando coágulos e impedindo a boa nutrição e oxigenação embrionária. Nesses casos, ocorre o que os especialistas chamam síndrome antifosfolípide ou trombofilia

 “A presença desses anticorpos na placenta em formação é altamente lesiva. Elas geram áreas de enfarto e impedem as trocas materno-fetais, gerando abortos e complicações em fases mais avançadas da gestação”, explica Araújo Filho.



Segundo ele, o tratamento adequado da síndrome antifosfolípide é feito com anticoagulantes (heparinas de baixo peso molecular) e imunoglobulina humana, em casos mais sérios. Essa última consome rapidamente o anticorpo, mas sua ação é por tempo limitado.


Anticorpos anti-tiróide
Os anticorpos anti-tiróide são auto-anticorpos que não têm participação direta na evolução da gravidez, porém, servem como marcadores de alguns distúrbios imunológico.


“Alguns trabalhos mostraram pior prognóstico da gestação quando esses anticorpos estão presentes. Nesses casos, é obrigatória a investigação da função tireoidiana, que, quando alterada, afeta todo o funcionamento corpóreo”, afirma o médico.


Fator anti-núcleo (FAN)
A presença de anticorpos antinucleares, detectada pela pesquisa de fator anti-núcleo (FAN), indica atividade auto-imune que não causa nenhum problema fora do período gestacional. Mesmo assim, ela pode levar a fenômenos inflamatórios nocivos a uma placenta em formação. Sua pesquisa é obrigatória em casos de infertilidade. Geralmente, esses anticorpos estão relacionados com doenças auto-imunes. “A que mais se associa ao FAN positivo é o Lupus Enfermatoso Sistêmico. Porém, o FAN positivo não indica obrigatoriedade no desenvolvimento do Lúpus. A terapia com corticosteróides costuma ter bons resultados”, explica o especialista.


Células Natural Killer (NK)
As células Natural Killer pertencem ao sistema imune e são responsáveis pelo reconhecimento de células estranhas ao organismo, células infectadas por vírus ou com algum tipo de alteração que possa levar ao surgimento de um câncer. Elas destroem diretamente as células alteradas pela injeção de substâncias que levam à destruição de sua membrana.


“O revestimento interno do útero (endométrio) é rico em células NK e um equilíbrio adequado de sua função é fundamental no processo de aceitação ou não do embrião. Células NK aumentadas elevam o risco de aborto de repetição”, diz Araújo Filho.


Segundo ele, o tratamento é feito com imunoglobulina humana. “O objetivo é regular a ativação e o numero de células NK, evitando a destruição do embrião”.


Trombofilia hereditária
Algumas mutações genéticas, ou seja, alterações nos genes que nascem com o individuo, podem levar a mudanças em componentes do sistema de coagulação. Essas mudanças aumentam o risco de coagulação no interior dos vasos sanguineos, causando as chamadas trombofilias hereditárias.


“A pesquisa da trombofilia hereditária é mandatória nos abortos de repetição. Temos como exemplo as mutações nos genes da Protrombina, do fator V de Leiden e da metilenotetrahidrofolato redutase, entre outras. O tratamento é baseado no uso de drogas anti-coagulantes”, afirma o médico.

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